Psic. Desp. Portugal
A psicologia do desporto em Portugal
Comparativamente com os restantes países da Europa e da América do Norte, podemos considerar que a Psicologia do Desporto em Portugal surgiu mais tarde (Cruz, 1996). Podemos mesmo, segundo Serpa (1995) situar a sua origem no ano de 1940, com o aparecimento do então Instituto Nacional de Educação Física (actual Faculdade de Motricidade Humana - F.M.H.) e a introdução das cadeiras de psicologia geral e aplicada, que tinham um peso importante nos seus planos curriculares.
Os primeiros contributos, realizados na década de 60, por Aníbal Costa, Alves Vieira, Noronha Feio e Paula Brito (Brito, 1990; Serpa, 1995 e Cruz, 1996), iniciaram o processo de estudo e divulgação da psicologia do desporto, despertando o interesse dos profissionais de psicologia e de educação física. No entanto, o mérito do nascimento deste ramo da psicologia deve ser atribuído a António Paula Brito, “verdadeiro pai da psicologia do desporto em Portugal” (Cruz, 1996: 31). A sua actividade de investigação, formação e intervenção neste domínio foi e continua a ser, um marco histórico e um ponto de referência para todos aqueles que se dedicam ao estudo e investigação nesta área.
É em plena década de 70, que se começam a concretizar os passos mais significativos rumo ao desenvolvimento da psicologia do desporto (Brito, 1990; Serpa, 1995; Alves, Brito e Serpa, 1996 e Cruz, 1996). No ano de 1975, para além do referido instituto de educação física em Lisboa também no Porto, através do Instituto Superior de Educação Física (actual Faculdade de Ciências do Desporto e de Educação Física), se começa a privilegiar a psicologia nos planos curriculares.
Em 1978, cria-se a Sociedade Portuguesa de Psicologia Desportiva (SPPD), embora só viesse a ser fundada oficialmente em 1980. Nesse mesmo ano (1978), para além da intervenção prolongada e sistemática de um psicólogo na Federação Portuguesa de Judo e da integração de apoio psicológico nos esquemas de trabalho da Comissão de Preparação Olímpica, foi criado o primeiro laboratório de psicologia do desporto no Instituto Superior de Educação Física (antigo I.N.E.F. e actual F.M.H.) da Universidade de Lisboa, sendo também incluída uma disciplina específica desta área nos seus planos curriculares.
A intervenção da psicologia no desporto português foi-se alargando nos anos seguintes. Esse desenvolvimento foi acompanhado, em simultâneo, pelo ensino superior e pelos agentes desportivos. A década de 80 tornou-se um marco importante no desenvolvimento desta especialidade em Portugal, principalmente no que se refere à investigação e produção científica. As áreas preferenciais de estudo situam-se nos aspectos emocionais e ansiedade, preparação psicológica, reaciometria, atenção/concentração e liderança (Brito, 1990 e Cruz, 1996).
O período dourado da psicologia do desporto, fase por excelência de implementação e enraizamento deste domínio no nosso país, verificou-se em plena década de 90, onde se recuperou parte significativa do atraso em relação aos outros países mundiais (Cruz, 1996). O contributo decisivo para tal progresso deveu-se em muito à realização de várias jornadas e seminários nacionais e internacionais, um pouco por toda a parte, atingindo-se o apogeu com o VIII Congresso Mundial em Lisboa, no ano de 1993. Este evento viria a juntar no nosso país várias centenas de especialistas de todo o mundo.
A produção científica aumentou significativamente, quer em termos de publicações, quer da realização de provas de doutoramento e mestrado na área específica da psicologia do desporto. Neste sentido, o papel de várias universidades e alguns politécnicos, tem sido preponderante, através da inclusão de disciplinas específicas da área nas licenciaturas de ciências do desporto, educação física e psicologia. A criação de laboratórios e a realização de pós-graduações, mestrados e doutoramentos têm também contribuído de forma decisiva para o desenvolvimento deste domínio. Segundo Cruz (1996) o primeiro mestrado em Psicologia do Desporto foi lançado pela Universidade do Minho em 1994. Actualmente a Faculdade de Motricidade Humana e a Escola Superior de Desporto de Rio Maior também o leccionam.
Segundo dados de Serpa (1995) e Cruz (1996), existem no nosso país oito pólos principais de estudo e investigação: Universidade do Minho, Faculdade de Motricidade Humana, Centro de Medicina Desportiva do Sul, Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro, Faculdade de Ciências do Desporto e de Educação Física da Universidade do Porto e da Universidade de Coimbra, Instituto Superior de Psicologia Aplicada de Lisboa e a Escola Superior de Educação da Guarda. Actualmente, a Escola Superior de Desporto de Rio Maior também constitui um ponto de referência, iniciando-se no ano lectivo de 2002/2003 a primeira licenciatura de Psicologia do Desporto e Exercício em Portugal.
Segundo Brito (1990) até ao início da década de 90, o número de trabalhos publicados em Portugal rondou os 100, sendo desenvolvidos temas em várias áreas, tais como: ansiedade; factores emocionais; preparação psicológica; perfis psicológicos; reaciometria; atenção; concentração; liderança; relação treinador-atleta; controlo emocional; agressividade e outros. Nos últimos anos, a psicologia desportiva nacional “tem vindo a evidenciar um salto qualitativo claro e notório, no desenvolvimento académico e profissional” (Cruz, 1996: 34). A investigação desenvolve-se a bom ritmo, assim como o intercâmbio internacional, onde Portugal se situa no pelotão da frente. Começam também a ser mais frequentes os pedidos de intervenção no terreno do treino desportivo, não só das equipas e atletas de alta competição, mas também nos escalões de formação, reconhecendo-se assim o inestimável papel desta ciência na preparação desportiva.
Em suma, de acordo com Fonseca (2001: 120), actualmente parece ser pacífico declarar que este ramo da Psicologia “ganhou claramente a batalha da quantidade, ou da sua afirmação”. Importa agora cada vez mais travar “de forma empenhada e sustentada, a batalha da qualidade”.